quarta-feira, 22 de junho de 2016

Desejos revelados


Era apenas para admirar o belo sorriso dela, já que ele não tinha o direito de sinalizar a vontade de beijá-la. Admirar em silêncio e tocar os seus lábios com os olhos, como faz uma criança frente a uma vitrine de doces coloridos e sortidos.

No entanto, o que os olhos enxergam e a mente imagina, às vezes transborda em desejos. E sem que pensasse em uma só palavra deixou escapar: "adorei a cor do seu batom".

Sua face alva imediatamente se tornou rubra de baixo a cima, como uma taça que se enche com o mais tinto sabor de Baco. E transbordou.

Aquele desejo derramado dominava seu imo e se espalhava como uma chama que oxidava todo o ser. Era ardência pura.

Suas conversas eram leves desde o primeiro encontro. As afinidades misturavam-se às espontaneidades, aos sorrisos e aos olhares discretos. Tão discretos que mal se olhavam, mas suas almas enxergavam e foram elas que lhes revelaram o desejo a cada um.

A dele, quando certa vez em um devaneio noturno, encontrara com a dela em algum lugar longe dali de onde se viam. Tinha sol ainda, mas o crepúsculo que fundia o dia com a noite foi o ingrediente essencial para que seus lábios se encontrassem na mesma proporção, até que se tornassem um, num único desejo dividido entre os dois.

A dela, quanto certa vez, em sonho, o assistia preparando um jantar. A taça era de Brunello ou Pinot Noir - não importa agora - que regava a secura de suas bocas, que imploravam pela hidratação de seus beijos.

Por um instante ela acordou ali mesmo, como se alguém chegasse. Mas logo sua alma se permitiu a voar para os braços dele, onde se desfez em chama de pecado e ardor de desejos.

Os corpos se arrepiavam a cada suspiro.
As bocas buscavam ar a cada instante que a do outro buscava outra parte do corpo alheio.
Ora o pescoço dele; ora os seios dela.
Ora o seu peito; ora o umbigo e a língua a escorrer como uma gota de suor que desce, à medida em que o calor aumentava.
Gemidos de aflição...
De desejo...
De tesão.

As mãos já não os obedeciam apenas deslizavam.
Ora tocavam aqui; Ora tocavam lá. E se encharcavam nos desejos que transbordavam pela pele.
Os poros se encontravam tão intensamente que eram epiderme, derme, carne, alma... e suspiros.

Era para ser apenas anseio, desejo e ambição. Mas revelaram os seus sonhos e agora engolem a seco tentando esfriar aquele calor que lhes sobe pelo peito. A garganta seca inquieta a alma.

E seus olhos ainda continuam se beijando, mesmo que o outro não saiba, assim como se beijam suas palavras, seus encontros, seus toques, seus abraços. Até um "bom dia" para eles significa um beijo recheado de desejo que transborda e que transbordará até que se afaguem; até que se amem; até que se entreguem de corpo inteiro.

Mas só de corpo, pois as almas já se lambuzaram de tesão.

3 comentários:

Unknown disse...

Simplesmente, Maravilhoso!

Unknown disse...

Simplesmente, Maravilhoso!

Helô disse...

Fantástico! Já senti isso por um certo alguém...