sábado, 8 de setembro de 2007

O segredo de uma mulher


O segredo de uma mulher se mistura ao desejo escancarado e disfarçado pelo poder feminino. Ele [o segredo] existe, é dividido com ele, é disfarçado dele, é negado a ele, mas a mulher, por ser mulher, brinca com a sua insinuação e por vez ou outra perde o controle de negar o seu desejo.

O segredo da mulher está no desejo de dominar e de ser dominada. De ser amada e desejada. De saborear o gosto da paixão e de deixar ser saboreada por uma paixão que ela carrega, mas resiste ali, no seu canto, retorcendo-se, imaginando-se, disfarçando-se, negando-se e quase se entregando, mas consciente de que tal paixão é conseqüência do seu único segredo: o de sedução.

A sedução não é o segredo da mulher é natural dela. O segredo da mulher está no mistério de ser seduzida, conduzida, desejada, possuída, até não suportar resistir e explodir de prazer, deixando-se dominar e ser dominada.

E é justamente essa variação de desejos e concepções que revelam o segredo da mulher em meio a um nevoeiro úmido como a noite, como a mulher, que aos galopes dos dedos dele, que se esbarram em suas pernas discretamente arrancando de forma inocente e sedutora toda a sua concentração, sente um arrepio que lhe permite cair de joelhos e entregar-se ao homem que a prende pela cintura.

O olhar é profundo.
A pele alva permite um carinho.
A boca molhada exige os beijos.
As pernas dela se abrem e se fecham às dele.

O segredo está descoberto. A mulher é amada e desejada e por fim, entrega-se à paixão regada por um segredo eternamente protegido por ele.

domingo, 2 de setembro de 2007

Notuno


Pelo amor de Deus, só me abandone de noite
Se quiser viajar sem mim, se ficar louca por outra pessoa,
Ou até se quiser visitar sua família e não me levar,
Vá de noite.

Nunca, mas nunca mesmo me deixe de dia.
Não vá me expor há um só segundo aos camelôs gritando,
Ao sol a pino,
À modernidade clara.
Fica comigo mesmo sem querer só até às seis da tarde.

Não me deixe sozinho com as mulheres gordas no supermercado,
Os senadores atrasados, as lanchonetes rapidinhas.

Agora, de noite, pode ir.
Eu e os meus fantasmas, apesar de saudosos,
Sobreviveremos à sua falta.

domingo, 5 de agosto de 2007

Dois amantes


O que dois amantes desejam?
Amar.
Resposta mais sublime e ardente não poderia existir quando há o mesmo desejo entre duas pessoas.
Um desejo secreto. Segredo.
Escancarado pelos olhares quentes, pelo vestido decotado dela, pelas mãos que se esbarram discretamente causando um frio na barriga e pelas ternuras dos carinhos subtendidos.
Pela boca seca. Sedenta de paixão, de desejo.
Boca que cala, que nega. Que assume o perigo e foge. Boca que se abre levemente esperando o contado da outra boca; as duas se tocam. E no milésimo segundo que separa o encontro das línguas o coração dispara.
Junto ao peito dele os seios dela, rígidos pela tensão e pelo tesão provocado pela respiração ofegante dele, que não consegue disfarçar sua excitação provocada... por ela.
Sem que se percebam os braços e abraços já estão se pressionando um contra o outro, um a favor do outro, desejando cada vez mais sentir aquele calor e aquele desejo provocado e provado no exato instante em que as línguas se tocam. Puro êxtase! O primeiro beijo se dá assim: calmo e tranqüilo.
Na mente dos dois amantes os corpos já provocam desvarios que transbordam à flor da pele. Um quer escalar o outro e dessa forma se colocam nas pontas dos pés como se quisessem colocar os corpos em erupção de desejos. E o que era boca, agora também é língua e as duas se provocam dentro das bocas que se permitem ser apenas uma.
Um instante para provar esse beijo.
Sem perder a excitação as línguas se procuram e se desejam. A dele busca o corpo dela que entrega primeiro o seu pescoço tentando disfarçar a falta de ar que tomara conta de seu peito. Doces sabores: uma mistura de perfume com a pele já suada.
Quando retoma o ar que lhe falta ela se acalma até que a boca dele sussurra em seu ouvido causando arrepios que descem por toda sua espinha, conseqüência das mordidas maliciosas em sua orelha.
Sem nenhuma palavra, apenas alguns gemidos e risos, os dois se arrastam pelas paredes e se deixam desmoronar em lençóis de uma cama que passa a ser explorada. Ali as primeiras peças de roupas deslizam pelos corpos e se atiram permitindo apenas que a última peça íntima dela permaneça como uma guardiã de um tesouro a ser conquistado. Com uma das mãos às costas dela, ele a conduz até à cabeceira declinando seu corpo com a parte superior inclinada e ereta. Com um olhar sedutor fixado aos olhos dela, revela o desejo de devorá-la e hipnotizada, ela permite ser beijada e novamente busca o ar que lhe falta.
A língua dele por sua vez desliza calmamente pela pele dela até contornar a parte inferior de um dos seios. A língua molhada contorna em redemoinhos toda parte rosada até tocar o bico enrijecido que implora pelas mesmas mordidas que lhe foram presenteadas às orelhas.
Um silêncio.
Apenas o som da respiração e algumas mordisca se revezando pelos seios acariciados por uma das mãos, enquanto a outra se mantém firme na cintura dela.
A língua dele desce até o umbigo e contorna o elástico que ainda a envolve por cima e por baixo, enquanto ela se contorce implorando pela libertação da carne. Estático... ele a segura com as duas mãos e sem que ela perceba, seu dente arranca a última peça que já esperava ser rompida. E prova (e provoca) o doce sabor da mulher. Ela se entrega, e com suas mãos enlouquece a si mesma mexendo nos próprios cabelos.
Enfim os amantes estão prontos para amar. Umedecidos pelo desejo e pelo suor permitem-se a todo o prazer dos corpos. Beijos loucos, abraços quentes, limites rompidos, gritos roucos, loucuras derramadas, pernas confundidas e encaixe perfeito. E isso é só o começo. As luzes se apagam e os amantes se permitem amar pelo resto da noite.
Horas mais tarde, depois do afã da paixão e quase desfalecida, ela recebe um carinho das mãos quentes dele em suas costas. Um suspiro dela e um sorriso dele, que cuida para que ela adormeça e acorde para se sentir a mulher mais amada.

Bom dia


Foi a lua cheia desta noite
Que me transportou para os seus sonhos
E me fez descobrir a sua magia de amar.

Foi o amor que tenho por você
Que me fez despertar
Para desejar-lhe bom dia!

Trilogia das tentativas


1ª Tentativa
Queria escrever um poema com versos estilizados e emocionados, que falasse do meu amor, que compusesse a sua ausência ou que me curasse dessa loucura, desse martírio de uma paixão imensa. Mas meu coração pisado, todo partido e no chão jogado não me trouxe as rimas que agüentassem o desafino de minha canção.

2ª Tentativa
Comecei a escrever sem mandamentos. Livre! Para que eu pudesse perceber os sonhos, para ver o meu coração no seu sorriso, para permitir rimas das estrelas que riscam o céu da madrugada como a luz do meu lampião, que rasga a noite como fora rasgado meu peito. Sem pretensão, só queria deixar triunfar a força da minha imaginação, fazer seresta na sua calçada e miséria em seu coração.

3ª Tentativa
Procurei uma frase de efeito. Busquei inspiração em seus lábios, em seu perfume que me embriaga; em seu corpo que me incendeia; em seu colo de mulher; em seu olhar de menina. E silenciei a minha voz e deixei o coração falar aquilo que calei um dia. E ele disse: “Eu amo você“. O amor é o carinho é o espinho que não se vê em cada flor. É a vida quando chega sangrando aberta em pétalas de amor.

Na escuridão

Viver na escuridão é chegar em casa e não acender a luz;
É tirar a roupa e não se ver no espelho;
É tomar um banho frio para aquecer a ausência do seu corpo;
É deitar-se para dormir sem precisar fechar os olhos;
É permitir que a lua cheia invada o quarto;
É libertar a alma pela noite fria;
É tomar uma taça de vinho;
É escrever sem inspiração.

Coluna

Eu precisava
De espaço
E você me deu
Apenas uma coluna.
Você me diagramou
No box do seu
Rodapé
Deixando de lado
O meu lead.
Não se importou
Com o meu texto
E descartou a
Minha manchete.
Esqueceu dos meus
Segredos de notícias
Dos meus furos
De reportagem
E hoje sou lido
Em consultórios
Camuflados
Nos trens suburbanos
E nas bancas das feiras.
Mas em sua edição especial
Já fui tema de sua editoria

Não se esqueça disso.

O Poeta ferido


Não foram ouvidas as suas preces pela paz
Não foram ouvidos os seus pedidos de proteção
Não foram ouvidos os seus desejos de conquistas.

Esqueceram de lhe avisar sobre o perigo
Esqueceram de lhe arrancar a inocência poética
Esqueceram de lhe mostrar a defesa.

Depois de um grito
O silêncio.

E em meio a todo o motim
Não foram ouvidos os seus desejos de ataque
E esqueceram de lhe proteger a retaguarda.

E o poeta que só desejava transmitir amor
Foi ferido pelas calúnias de uma única mulher.

Soneto para você


Seria mais fácil se tivesse dito a verdade
Ma pouparia as palavras
E todas aquelas tentativas
De escrever um poema para você

Não tentaria me traduzir
Através da minha inspiração fraca
E não terminaria com
Aquela pergunta o meu poema.

Não pensaria em meus fantasmas
Nem em minha depressão,
Evitaria o ato de vapirismo

E reduziria toda a dor
À verdade que transpassara o meu peito
Como uma estaca que fere, sangra e mata.

Declaração


É você o meu amor escondido nas palavras dos meus poemas.
É você o meu amor que me faz soluçar em noites frias.
É você o meu amor que não sabia por onde se escondia.

Se Belém ou Maceió
Se Paraíba ou Acre
Se a beira mar ou se em noites paulistanas.

É você o meu amor que em minha vida deixou sinais
É você o meu amor que transpassa este peito a cada alvorada
É você o meu amor que vem todas as noites em meus sonhos

Sejam noturnos ou lúcidos
Sejam passageiros ou constantes
Sejam reais ou mentais.

É você o meu amor
Que aparece com o tempo
Fazendo com que esta luz no olhar
Cegue a minha loucura de viver só.

Último cálice


Em uma viagem para Montalcino
Escolhi o monte mais alto
Para falar com Deus.

O silêncio das capelas romanas
E o vento frio soprando de Florença
Tomavam conto do meu corpo
Durante aquele encontro divino.

Calei a voz
Ouvi o silêncio
Senti o frio...

Falei com Deus
E brindei sua ausência com Baco
Que me ofereceu um brunello
Em seu cálice da salvação

Um poema pra você

1ª Tentativa
Nada traduz
Nada inspira
Por que é tão difícil
Escrever o último poema?

2ª Tentativa
O que eu quero escrever
Não tem nada haver com a fábulas, vampiros
Ou com a minha depressão
Tem alguma coisa haver com
Traduzir a solidão
A solidão de você.

3ª Tentativa
Tudo se resume
A uma cruz e uma espada
E no meio o meu coração
Ferido pelo seu desprezo.

Submarino Amarelo


Ela não acredita, mas eu amo os Beatles.

Seus cabelos, suas roupas, seus anéis...

Seu João; Seu Paulo;
Seu Jorge...
Ringo!

Digam a ela
Eu amo os Beatles
.

Fábula


Diga-me:
Quem sou EU?

Radical? Psicótico? Vegetariano?

Me bata, me larga, me esquece
Mas diga-me:

Quem sou EU?

Último desejo II


E se não for pedir demais
Deixe-me tocar o seu corpo só mais uma vez
Para eu me lembrar desse calor que me queima
E que tantas vezes feriu as minhas partes.

E se não for pedir demais
Um último beijo
Para eu guardar na lembrança
Aquele gosto amargo que tantas vezes
Me fez vomitar.

E se não for pedir demais
Um último abraço
Para sufocar o meu corpo cicatrizado
Por sua maldade crua.

E se não for pedir demais
Apenas um encontro
No fogo do inferno de nossas almas
.

Abstinência


Eu preciso me livrar dessa depressão
Quero experimentar toda droga que me seja oferecida.

Por que essas mãos trêmulas
Esse meu olho vermelho
Essa desidratação do meu corpo
Que adoece a cada grama de pó?

Quero fumar o crack e me embriagar na fumaça branca
Tomar desse chá e me livrar dessa prisão.

Por favor me ajude
Quero aliviar esse dependência
Dê-me qualquer coisa.

Qualquer droga de caneta, de lápis,
Lapiseira, giz-de-cera ou canetinha..

Qualquer droga de papel
Carbono, higiênico, de pão...

Qualquer droga de tijolo de construção
E calçada.

Preciso escrever um poema.

Vale Encantado


Que todos os personagens deste vale
Cantem e se encantem com a beleza
E a simplicidade de um sorriso.

Que todas as luzes que brilham na noite
Estrelas, lua, vaga-lumes e lampiões
Iluminem os rosto da mais bela mulher

Que neste palco se mostrou linda e ferida
Com o coração apertado, por não poder dançar
A madrugada em festa.

Que o meu amor despertado por aquele encanto
Ultrapasse os limites do vale
Para que eu possa provar a emoção de seus beijos.

E que eu possa ser um personagem nessa história
E cantar com ela uma balada e um blues
Para enfim provar em seus lábios mel e sol.

Lembranças


Pra onde corre esse sangue que jorra do meu peito dilacerado
Pela saudade que invade meu coração?

Toma esse cálice da minha mão
Para que eu não me envenene mais deste sofrimento púrpuro

Que se alimenta com esse gosto de dor
Que invade meus pensamentos e cresce com a sua lembrança.

Não me deixe nessa amargura.
Toma essa peça para o seu quebra-cabeça e
Lança tua arma em direção a este peito pequeno.

Para que ela estanque o esse vaso de sangue
Que banha minh’alma
Com o vinho que me embriaga.

Ateu


Eu me embriago sempre que tenho vontade
Basta uma garrafa, um cálice e uma ocasião.

Eu me embriago para libertar os meus espíritos
Que são fantasmas que se alimentam de toda essa graduação alcoólica.

Eu me embriago para ganhar
Para perder
Ou apenas para manter a inspiração.

Eu me embriago
Como os românticos se embriagavam

E mesmo com minha turbeculose literária
Me embriago para ver os milagres
E assim acreditar em Deus.

Inspiração

Os mortos esqueceram-se da ressurreição
Os anjos esqueceram-se do perdão
E eu perdi a inspiração...

Foi o vinho.

Vôo 1785 – Maceió-CGH


Como é bom voar
Estar acima das nuvens
E olhar você lá de cima

Perceber a imensidão do planeta
Sem enxergar o limite dos meus sonhos.

Como é bom voar
Sentir sua presença
Lá em baixo

Procurando aqui em cima
As luzes do meu avião.

Como é bom voar
Esquecer da solidão
Que em meu peito carrego
Por estar longe de você.

Como é bom voar
Estar a cima das nuvens
Carregadas pela chuva
Que molha o seu corpo
Que espera pelo meu
Para desfrutar o nosso amor.

Como é bom voar
Navegar por este céu
E por fim chegar
Adormecer em seus braços
E provar o sabor dos seus beijos.

Último desejo


Não me pare agora
Eu tenho mais um anjo para esculpir
Com todos os seus detalhes puros
Seus olhos arregalados
Suas asas abertas
Seus pés juntos
E suas mãos postas em oração.

Não me cale agora
Eu tenho mais um poema para recitar
Com todas as suas concordâncias
Suas métricas rigorosas
Seus versos curtos
E suas estrofes completas.

Não me mate agora
Eu tenho mais uma mulher para amar
Com toda sua sensualidade
Suas insinuações
Seus desejos
E suas loucuras.

Poesia


Todo poeta romântico e maldito
Moleque e vadio
Enfrenta a insônia como gente grande

Confessa seu medo declarado do escuro
Expõe sua loucura contra os moinhos de Cervantes
E confessa a sua valentia

Em defesa de seu amor.

Declaração

"Há de ser como o louco Quixote
E a lógica insiste em guardar em seu pote
A mais linda frase que eu ia dizer"

Assim recomeço
A dizer do que não sei
Parafraseando um poeta mongol
Sem deixar destruir o sentimento
Que usei para lhe amar a cada pôr-do-sol.

Ah sim! A mais linda frase que eu ia dizer: Te amo!

Soneto do meu silêncio

Se fosse resolver a minha agonia
Falaria a você aquilo que calo em meu peito
Estancando o sangue que jorra
E calando o choro da minha alma.

E aqui no coração
Ficaria apenas o silêncio
Que se ouve ao fim
Da melodia tocada na alvorada.

Mas sei que jamais resolveria
E não lhe falaria do meu amor
Nem em canções, nem em lágrimas

Nem mesmo neste soneto
Que termina com o silêncio
Amargo da solidão.

De Pai para Filho

É curioso como me pareço com aquele senhor ali. Aquele naquela foto no quadrinho. Aquele que de seu semén me fez homem. Senhor Décio Alves Ribeiro, esse é o nome dele.

Como me sinto parecido com ele. A maneira com que me sento e cruzo as pernas; a mão na boca com o indicador em riste apertando a minha bochecha; o sentimento puro pela mulher amada; e a saudade da infância que há muito fora vivida.

Como me pareço com o meu pai. Meus olhos, meus poucos cabelos, meus medos, minhas paixões. Nunca conversamos sobre isso, - Vinícius me perdoe, mas é a pura verdade – mas sei que se falássemos cairíamos em prantos ouvindo uma canção de bossa nova e nos imaginando em Niterói.

Lamentação

Eu tenho cá comigo
Coisas que não tinha no sertão
Água, mulher e pão

Mas também tenho saudade
Que de tão grande invade
E toma conta do meu coração

E aí é só solidão
Um vazio no peito
Como uma cuia sem feijão.

Você nun vestido de chita
Dançando quadrilha de São João
No céu estourando rojão
Só em noites do sertão
É que ainda vejo balão

E rezo pra São José
Pra chuva molhar o chão
E garantir o milho de pé.

sábado, 4 de agosto de 2007

Engarrafamento – No Farol

Ele: Haja nervos, hein?
Ela: É, essa hora é fogo.
Ele: Ta vindo do trabalho?
Ela: Faculdade e você?
Ele: Aeroporto.
Ela: Chegando de viagem?
Ele: Não fui levar minha esposa.
Ela: Pra onde ela foi?
Ele: Curitiba.
Ela: Visitar parente?
Ele: Não.
Ela: Qual foi?
Ele: Abriu.
Ela: Abriu?
Ele: Tchau.

No dia seguinte
Ele: Que coincidência!
Ela: Pois é.
Ele: Qual o seu nome?
Ela: Carla. E o seu?
Ele: Carlos.
Ela: Que coincidência!
Ele: É
Ela: Sabia que eu fiquei morrendo de curiosidade ontem?
Ele: Por quê?
Ela: Porque quando você ia dizer o que sua mulher foi fazer em Curitiba a gente arrancou.
Ele: Eu falei.
Ela: Não, quando você ia falar, abriu.
Ele: Eu falei abriu porque ela abriu comigo, me abandonou.
Ela: Você está triste?
Ele: To arrasado. E você é feliz?
Ela: Sou uma mulher morta!
Ele: Por quê?
Ela: Sou sozinha.
Ele: Abriu!
Ela: Por que ela abriu?
Ele: Abriu o sinal. Tchau!

Uma semana depois
Ele: Cê ta atrasada! Quase bati pra te esperar aqui nesse farol.
Ela: Eu tenho que te contar.
Ele: O quê?
Ela: Conheci outro no farol da avenida Brasil.
Ele: Ce quer dizer que é o fim?
Ela: Não, eu só não quis te enganar!
Ele: Eu me mato! Eu me mato!
Ela: Não! Eu não agüentaria o trânsito sem você!
Ele: O nome dele?
Ela: Abreu.
Ele: Foda-se! Enquanto não falar o nome dele eu fico aqui parado!
Ela: É Abreu o nome dele.
Ele: Ah! Pensei que tinha aberto.
Ela: Abriu.
Ele: Abreu de quê?
Ela: Abriu o sinal.
Ele: Tchau.

30 dias depois
Ele: Você por aqui?
Ela: É, não agüentei.
Ele: E o Abreu da avenida Brasil?
Ela: Abriu! Me trocou por uma motorista de fusca da rua Augusta.
Ele: E você veio me pedir socorro?
Ela: Socorro!

Para a Lua


E pensar que nunca escrevi para você
Já falei de tantos
Já falei de todos
Já falei do tempo...
Mas e de você?

Talvez tenha sido por nossa afinidade
Que eu tenha cometido tal erro
Mas foi um erro proposital porque na verdade
Sempre tive medo de mostrar o meu verdadeiro sentimento.

Tanto já conversamos
Já nos confidenciamos
Mas a maior confidência é o meu amor por você.

Lembro das nossas noites de solidão em que eu chorava e você me ouvia.
Eu não percebia que você me amava, por isso não expressei o meu sentimento.

Nem em frase
Nem por gestos...

Mas agora estamos livres
Vamos viver o nosso amor
Você daí e eu daqui

E quando o sol para mim se apagar
Quem sabe eu poderei estar com você e poder enfim,
Sentir seus lábios
Nos lábios de minha alma.

Simples Soneto para Deus


E eu querendo lhe encontrar
Mostro-me de todas as formas
Com todas as poses
Em uma só dança

Mas você parece estar tão longe.
A leveza da minha alma
Transfere-me para todos os espaços
E eu ocupo o ar, o céu e até as ruínas.

Mas onde você está?
E eu querendo lhe sentir
Busco o sol

Então olhando para o infinito eu descubro
Você não está tão longe assim
E eu lhe encontro dentro de mim.

Conto FNC

Ele odiava aquela garota e alguns diziam que o ódio era recíproco. Mas com o passar do tempo e por ordem do destino vieram a dividir o mesmo espaço de trabalho.

Numa manhã, ele caminhando pela rua a viu e desviou. Ela o encarou e o convidou: “venha trabalhar ao meu lado”. E sem resistir lá estava ele, sentindo-se deslocado ainda por causa de seu orgulho forte, mas desempenhando melhor ainda seu papel ao lado dela.

O tempo passou e com ele o ódio e, mais uma vez, por vontade do destino, ele voltou a dividir com ela o mesmo espaço de trabalho, mas dessa vez seu orgulho o deixou à vontade e formaram um par de causar intriga. E o ódio transformou-se em gostar.

Um dia, o mataram. Ou melhor, inventaram para ele uma morte de seu corpo e de sua alma, mas a farsa fora revelada e os dois puderam se abraçar em celebração à vida. E o gostar, transformou-se em paixão.

Mas ela havia se apaixonado por outra pessoa e a paixão dele tornou-se platônica. Respirou, escreveu seus poemas e soube respeitar o momento que era dela, mas que não podia existir sem a presença dele.

Divertiram-se e jogaram um contra o outro em um jogo em que ela fora a vencedora e ele, exausto, socorrido pelo reconhecimento dela. Juntos brindaram com pão e água. Riram e se emocionaram. E dessa forma conseguiam ficar e juntos.

O acidente.

Em uma noite ela dirigia e por um descuido, perdeu o controle do veículo que não escapou de uma leve colisão. Leve, porém o suficiente para que ficassem assustados. E na noite fria se abraçarem pedindo proteção um do outro.

Naquele momento ele não teve dúvida. Precisava contar de seu sentimento e desrespeitar qualquer regra, qualquer julgamento alheio. Mas a presença dela era valiosa e por medo de perdê-la, calou-se.

Covarde!

Foi agredido covardemente e dessa vez, sofrendo na pele o impacto da separação, confessou o seu amor a ela. Confessar o que? Ela já sabia de tudo e por algum instante pensou em render-se, mas o relacionamento já estava desgastado.

Separam-se.

Permaneceram amigos por muito tempo até que o destino deu conta de romper definitivamente aquele laço.

E no coração dele a presença dela continuou forte até adormecer, sonhando um dia ser acordado por um beijo dela.

Dê Tempo ao tempo


O tempo existe
E devemos viver todo o tempo a todo tempo.

Esperamos o tempo passar para encontrarmos Deus
Esperamos que Deus não nos abandone tempo algum.

Mas por que não aceitar o tempo
Se levei tanto tempo para lhe encontrar?

Muito mais tempo levou você
Para encontrar alguém que lhe fizesse feliz
Que não lhe fizesse chorar
Que não lhe fizesse perder tempo.

E você não me aceita devido ao tempo
Mas se você é dona do tempo
Não terei tempo para alcançá-la.

Então não falaremos em tempo
Falaremos em mundo.

O tempo é seu e nele construiu o seu mundo
Contudo vou lutar para construir meu mundo
Nem que para isso eu precise de tempo
Mas só assim poderei lhe alcançar
E até mesmo lhe ultrapassar
Nessa corrida em que o tempo
É o amor.

O Desconhecido


De súbito encontrei-me perdido em um lugar escuro, como uma luz apagada, como um olho fechado ou como a cegueira da visão. Contradição do fundo do meu ego. Um ego oco e vazio como um eco entre os Andes.

Então comecei a caminhar e encontrei-me com a agonia. Ela ocupava todo um corpo e espremia o coração e fazia o pensar o cérebro que estava sofrendo.
Então perguntei: “Por que agoniza este corpo?”
E ela me respondeu: “Porque o coração é pequeno e devido à minha grandeza e formosura, preciso de um corpo para me expor”.

De fato ela era grande, mas percebendo o seu mal lutei com todo meu ódio e aliviei a agonia.

Porém o escuro continuava e o desconhecido me atraia. Continuei a caminhar e encontrei-me com o ódio. Ocupava todo um corpo e fazia pensar o cérebro que era agressivo.
Então perguntei: “Por que desperta a ira em todo esse ser?”
E como se eu já soubesse a resposta, ele me disse: “Porque o coração é muito pequeno e não consigo me expressar em tão pouco espaço”.

De fato o ódio era majestoso e grande, mas o desafiei e lutei com toda minha agonia e acalmei o ódio.

Resolvi então visitar o coração. Um lugar frio e vazio, ou melhor, quase vazio. Percebi que uma pequena luz brilhava em um minúsculo ponto. Era o amor. Aproximei-me e perguntei: “Por que você é tão pequeno? Por que não ocupa todo o corpo como o ódio e a agonia?”
E ele me respondeu: “Porque não sou tão grande, mas sou formoso. Não sou majestoso, mas rico em humildade. Posso crescer e ocupar todo o coração se quiser, mas o cérebro por um instante não me dá atenção”.

Então, como se eu conhecesse todo o consciente pensei no amor. Criei o amor e transformei o amor. E ele cresceu e me fez amar.

De súbito encontrei-me em um lugar de luz, como a realidade da fantasia. A adição do meu ego com um ser que me prendia e me preenchia, dando acústica ao meu eco.

Desconhecido é o ser chamado homem, que não sabe amar. E que de tão grande, faz do amor um ser imaginário, e talvez desconhecido.

Contraste


O deserto é muito quente, mas sua noite é fria. O céu parece sugar todas as estrelas do universo.
Deitado nas areias do deserto eu vejo estrelas cadentes passando rápidas como um relâmpago e deixando uma calda de luz e brilho. Um fenômeno divino!

Sozinho, na areia do deserto, o ar queima os meus lábios; uma luz forte brilha em meus olhos e de dentro dela a voz do meu anjo da guarda soa ao meu ouvido:

“Caminhe em busca de sua felicidade, mas não deixe que suas lágrimas caiam nas areias para não deixar rastros, pois deverás chegar sozinho ao centro de seus sonhos”.

Então perguntei:
“Como saberei a hora de chegar?”.

“Não temas, pois quando chegares, encontrarás tua amada e no deserto não mais estarão, mas sim deitados em um campo com pequenas flores. Alguns vaga-lumes estarão convosco e no céu outra estrela cadente passará deixando sobre vós uma luz de paz e amor”.

sábado, 28 de julho de 2007

Tempo perdido

À vezes tenho dúvida da minha própria existência (e olha que em 1994 eu ainda não havia assistido ao “Quem somos nós”)
E o tempo parou...

Nem a dor mais forte trouxe você pra mim
E eu deixei de lutar pelo meu tempo, pelo meu mundo
E agora uma pausa...
Um suspiro...

Por que se esconde?
Gostaria que estivesse aqui para eu poder garantir-lhe o que me pede.
E você, não sofre?
Não sei, mas alguma coisa você deve sentir.
Já sei, insegurança não é?

Quando criança eu tivera medo de sofrer por um grande amor
E hoje, como homem (só tinha 17 anos)
Tenho medo do tempo
Está sentindo? Ele está passando

Por favor, não se afaste com ele
Heim? Eu não estou te ouvindo
É... o tempo não parou
Eu parei no tempo.

Por sua dúvida

Uma certa vez eu parei no silêncio...
Eu havia dito muitas coisas, tocado várias canções
E ao som da minha flauta, você se calou.

Duvidou de mim e não foi capaz de acreditar na fragilidade da minha alma.
Não foi capaz de aceitar um sentimento subentendido.
Então mesmo com mil vozes e com os sopros dos anjos
Você duvidou de mim
E no seu motim eu me calei.

Acreditei em você e soube aceitar a resistência da sua alma
E novamente eu parei no silêncio
E percebi que o erro era meu.

Errei por não me apresentar por inteiro
Por medo de expressar os meus sentimentos
Eu não fui correto
E agora é tarde...

E na bulha das vozes e no forte sopro dos anjos
Eu me escondo no silêncio

E no silêncio, peço que me perdoe...
peço que não me abandone...
peço que não duvide de mim...
peço...

... é só o que peço.

Desejo de amar

Uma vez, seguindo no silêncio
Pedi para que não me abandonasse.
Reconheci meu erro e pedi perdão.

Você olhou em meus olhos
Tocou meus lábios
E se calou.

E sentindo toda energia do universo
Acreditei em você e senti a resistência de sua alma.
E me senti seguro. Envolvido.

De súbito encontrei-me livre.
E na formosura dessa liberdade
Senti que podia amar novamente.

Mais uma vez eu segui em silêncio
E como se dominasse todas as filosofias e conhecesse todos os mistérios, compus uma formosa melodia com a bulha dos anjos.

E no imenso desejo de te amar
Quebrei a fragilidade de minha alma
E entreguei-me a voc
ê

Lição de vida


Então, de súbito, o vento soprou um pouco mais
E uma gota do sereno molhou um pequeno pedaço do chão.

Eis que na manhã seguinte uma vida surgiu e me alegrou,
E me fez pensar um pouco mais na minha própria vida.

Uma rosa de cor forte brotou.
Que milagre estupendo!

Naquele momento subi no pico mais alto, encarei a ave mais selvagem e gritei: “Obrigado por você existir!”
E cativado por aquela simples, porém exaltada vida, passei a viver em função dela.
Tudo era para ela, tudo era por ela.

E sem controle da minha euforia não resisti e a toquei.
Um silêncio...

O forte espinho de seu caule tirou de mim uma gota de sangue
E então meus olhos se abriram para a realidade e percebi que o mundo da rosa era outro e que sem a fertilidade do solo ela não poderia viver.

Então, de súbito, o vento soprou
E uma lágrima molhou o vaso que para ela eu havia preparado.
E descubri que para ela continuar vivendo, precisaria do meu carinho e cuidados.
E percebi que o mundo é todo meu, mas que ela não poderia viver com o meu silêncio.

Diálogo com o vento


Eu: Fala vento, estou aqui para escutá-lo.
Vento:
Eu: Verdade! Como?
Vento:
Eu: Que pena...
Vento:
Eu: Mas teve algum motivo?
Vento:
Eu: E o outro, também levou?
Vento:
Eu: Que bom, às vezes faz bem.
Vento:
Eu: Mas o importante é que ninguém se foi...
Vento:
Eu: Sério? Meu Deus! E ela, como está?
Vento:
Eu: Quem sou eu para julgá-lo. Se não a ama, que culpa tenho eu?
Vento:
Eu: O amor. O coração não vive sem ele.
Vento:
Eu: Ha, ha, ha... talvez você seja o amor.
Vento:
Eu: Claro, você precisa.
Vento:
Eu: Boa Sorte!
Vento:
Eu: Adeus.

Na rua

Rua não é só uma rua
É também uma casa
Onde não há cômodos nem móveis
E crianças quase nuas dormem.

Dormem e vivem ali
Sem a proteção dos pais
Não se importam com os ladrões
E sim com os policiais.

Talvez sejam ladrões
Ladrões da sobrevivência
Quando querem alguma coisa
Pegam para supri a sua carência.

Alguns vencem
Conseguem o trabalho da vivência
Outros, sem oportunidades
Vivem sob a batalha da sobrevivência.

O sabor das lágrimas


Tão misterioso é o sabor das lágrimas
Ninguém sabe defini-las
Elas podem ser amargas, ter gosto de morte.
Elas podem não ter gosto, saem por tristeza.
Elas podem ser dóceis, ter gosto de felicidade.

Mas o que é a morte? A tristeza? O que é a felicidade?
Tão misterioso é o sabor das lágrimas
Será que estes três estados do homem
Despertam-se ao sabor das lágrimas?

Tão misterioso é o mundo das lágrimas
A porta deste mundo com certeza está dentro de nós.
Se pensarmos muito na morte ela virá e trará consigo aquelas amargas lágrimas.
Se persistirmos na tristeza, não teremos o prazer de sentir o gosto das lágrimas.
No entanto, se mantivermos dentro de nós
Uma louca paixão,
Uma luz de sol
E uma insuportável vontade de viver
Sentiremos como é gostoso sentir o gosto de uma lágrima.

Tão misterioso é o mundo das lágrimas
E só podem defini-las
Os homens que não têm medo de lágrimas.